Quinta-feira, 9 de Março de 2006

A cortesia da cultura

Ex.mos Senhores,

Agradecendo a proposta que nos foi remetida por V. Ex.ª, relativa ao assunto em epígrafe, comunicamos que a mesma mereceu a melhor consideração por parte desta Autarquia.

No entanto, cumpre-nos informar que, apesar de se tratar de um projecto de significativo interesse cultural, não nos é possível incluí-lo na programação deste Departamento, uma vez já se encontrar definida nas Grandes Opções do Plano e Orçamento deste Município para o ano de 2006, pelo que a conjuntura orçamental não nos permite ir além das despesas previstas para o efeito.

No entanto, registaremos o V/ contacto para que, futuramente, possamos equacionar a hipótese do Município de xxxxxxx acolher eventuais propostas que V. Ex.ªs possam vir a apresentar.

Desejando, desde já, os melhores êxitos na prossecução dos V/ espectáculos, apresentamos as nossas mais cordiais saudações culturais.

O VEREADOR DA CULTURA

XXXXXX


Quando recebi o e-mail com este conteúdo de um conhecido Município nacional recordei que esta manhã fui acordado pelo mesmo Município com uma chamada para o meu telefone fixo. Pediam-me o endereço para enviarem uma carta, provavelmente com os mesmo conteúdos que aqui se apresentam, pelo facto de eu não indicar o FAX nos contactos que lhes tinha dado. Dei-lhes então o meu e-mail, desliguei e ainda tentei dormir mais um bocado. Enfim, estragaram-me a manhã.
Entretanto esta tarde recebo o e-mail e pergunto-me que os levará a fazerem estas respostas formais. Estou perfeitamente habituado à comum cortesia das instituições denominada silêncio. Cagam em mim e pronto, não se põem com pedidos de desculpa por causa disso. Qual seria então a razão pela qual me ligaram a pedir endereços e faxes, se simplesmente me querem dizer que não estão interessados em nada que tenho para lhes vender. Pensei mais um bocado e percebi tudo.
Imaginem um Pelouro da Cultura de um Câmara Municipal. Temos o Vereador, que normalmente é um cargo político, quer dizer isto que é alguém que tanto podia estar ali como no Apoio ao Imigrante. Foi para ali porque não move interesses entre os empreiteiros e o cunhado do Presidente devia-lhe um favor desde a tropa. Como é licenciado e nunca fez nada na vida vereador é um cargo porreiro para um rato do partido em representação local. Depois, quando o Pelouro da Cultura não está no mesmo saco que a Juventude, Desporto, Habitação e Saneamento Básico, o vereador tem que se preocupar em criar actividades nas festividades municipais e tentar sacar o máximo de satisfação do eleitorado descontente. Para isso tem os programadores do Pelouro. A função destes programadores é juntar propostas de actividades e convencer o vereador a gastar o orçamento disponível com essas iniciativas em vez de fazer apenas um grande jantar de natal para os funcionários. O vereador decide, a festa faz-se e o povo é feliz fazendo feliz o poder. Entretanto em épocas de vacas magras, quando não há dinheiro para a grande festa, então em vez do concerto e das febras faz-se só as febras e mete-se um karaoke maravilha com os novos temas do Michael Bublé na praça, distribui-se mais vinho a martelo e está feito o brilharete. Nesses anos, todos os assistentes dos programadores, os gráficos que fazem o material promocional, os produtores que organizam as actividades, o electricistas que dão luz à festa e todos os outros assalariados municipais que recebem para dinamizar esta área da instituição ficam sem quase nada para fazer. Chama-se à actividade tratar das febras e encher chouriços. Nesta altura torna-se urgente que dar trabalho a todos os empregados do estado que de repente descobrem a maravilha da função pública, os subsídios, as faltas justificadas, o messenger, o café imediatamente depois de vir do almoço ou o cigarro após a entrada ao serviço.
Quando o Presidente, entre dois pratos de carne pergunta ao Vereador, "Afinal meu caro, que têm feito os funcionários do seu Pelouro?", ele responde "Enviam uma carta com a resposta negativa que eu mesmo escrevi a todos que apresentaram propostas, tem de vir ver o rebuliço que é aquela Casa da Cultura, se ainda houver orçamento para este ano convido o Sr. Presidente para uma visita guiada às teias de aranha do palco e às luzes fundidas do museu. Será um belo beberete."
E continuam a comer o Leitão alegres e risonhos, crentes que o mundo é tal como o desenham.

publicado por Manuel Padilha às 15:38
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