Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Just a moment. Three measures of Gordon’s, one of vodka, half a measure of Kina Lillet. Shake it very well until it’s ice-cold, then add a large slice of lemon-peel. Got it?

Quando não se sabe fazer cocktails, a melhor estratégia é garantir com muita confiança que não existem mais do que seis - e umas centenas de variações destes - e dar a entender às pessoas que só interessa beber martinis (dry martini), old-fashioned, daiquiris, margaritas, sours (whiskey sour) e sidecar. Pode haver, sem vergonha, uma segunda liga que envolva  gin tónico, bloody mary, caipirinha e mojito, mas a utilidade dos seis primeiros é tão espectacular que se pode viver décadas a impressionar os amigos à volta das suas possibilidades.

A minha primeira e única desilusão com James Bond aconteceu há muitos anos, quando me apercebi que o vodka martini shaken not stirred é a versão suave e desvirtuada do Dry Martini. A versão maricas, no fundo. Isto vai parecer estranho, mas um bom segredo para aligeirar um cocktail é substituir o spirit1 original por vodka. Claro que bate como os outros, estamos a falar de aligeirar o palato, mas é precisamente isso que torna tão difícil lidar com um Bond que escolhe vodka em vez de gin. A parte do shaken, claro, é a cereja da vergonha. Já basta o vermute, não há necessidade nenhuma de encher um martini com água. É tudo muito lamentável, embora o o Vesper Martini do Casino Royale nem seja uma má ideia e pode deixar a esperança de que o Bond (o Fleming, na verdade) não seja tão pacóvio como deixa passar de vez em quando. Talvez fosse legítimo nessa altura uma pessoa cansar-se do martini clássico, com gin e vermute.

Resumir um martini (martini é o nome do cocktail antes do nome da marca, claro) é simples. Um spirit (gin, vodka, genebra) e uma parte muito menor de vermute, que agora pode ser, e provavelmente será, Martini, extra seco. A receita mais comum envolve duas partes de gin e uma da martini, mas a ideal será a sugerida por Hemingway, Kingsley Amis, Miguel Esteves Cardoso e por mim: oito partes de gin para uma de vermute. Casca de limão no topo e já está (resistam à tentação da azeitona, pela vossa saúde). A partir de certa altura parece ter nascido um concurso para ver quem conseguia utilizar menos vermute nos martinis. A receita das oito partes é suficiente, mas há quem consiga ir mais longe e deitar fora o vermute do shaker, deixando apenas o gelo que ficou para receber o gin. Ou, se for necessário levar isto às ultimas consequências, aceitar a história talvez apócrifa do Churchill, que dizia bastar olhar através do gin que tinha no copo para a garrafa de vermute na estante do bar, para beber o dry martini perfeito.

A amargura do dry martini pode muito bem fazer dele o melhor cocktail do mundo, não tivesse sido inventado o Old-Fashioned, a provar que é de homem beber um cocktail doce e de laranja. Eu vendo-me facilmente a ambos, mas curiosamente não há personagens na ficção popular que alternem entre um e outro. Não há um unico filme em que Bond beba um old-fashioned (mas há livros, mas há livros: no Diamonds are Forever bebe-os duplos e à refeição) e em Mad Men, a série que mais bem tratou os cocktails nos últimos anos, o Don Draper, esse 007 da publicidade dos anos 60, passa duas temporadas a beber old-fashioneds, excepto numa situação em que resolve embebedar o chefe com dry martinis e ostras. Todos os dry martinis da série são associados aos fuinhas e todos os old-fashioneds são bebidos por gajos porreiros e de bom fundo. Pode ser que o autor simplesmente odeie ingleses, e pode ser que os realizadores dos Bonds achassem que o pintas não podia beber bourbon sem lhe cairem os parentes na lama. Questões lá deles.

1 O que é que eu uso em português para substituir spirit? Se a sugestão for bebida espirituosa, escusam, que recuso-me.

publicado por Sérgio às 17:46
link do post | comentar
5 comentários:
De MEC a 8 de Julho de 2009 às 19:54
Cheers, Sérgio! Ian Fleming, tal como Kingsley Amis, não percebia nada de cocktails, por ser inglês e alcóolico. Hemingway também era alcóolico mas, como era americano, compreendia o espírito do cocktail. Apesar de ter sempre a mesma estratégia, nem sempre a mais saborosa: aumentar o grau alcóolico da bebida. Nem sempre mas, enfim, quase sempre. O que é good enough para mim.

Estou só a escrever para dizer que "spirit" em português é destilado. É feio (e apetece escrever com dois is) mas é respeitoso e mais preciso do que "espírito".

Mas tem razão: "bebida espirituosa" é mau. É melhor para os vinhos "generosos" (do Porto, etc) que levam aguardente - um destilado - para parar a fermentação e, à Hemingway, fortalecer.

Um abraço fraterno,

Miguel

(que já ganhou o dia, ao aparecer na mesma frase do que Hemingway e Kingsley Amis. Obrigado!)
De maradona a 8 de Julho de 2009 às 23:10
ainda bem que me dão razão. obrigado aos dois.

abraço
maradona
De Sérgio a 9 de Julho de 2009 às 01:49
Oh Miguel, tudo o que eu sei sobre este assunto, foi retirado daquela dúzia ou pouco mais de receitas de cocktails que li no primeiro Pastilhas, isso que fique claro. É tão claro que passei este post todo no terror de estar a plagiar tudo frase a frase. Até aí, posso garantir, nunca tinha provado um martini, quanto mais fazê-lo em casa. Aliás, consegui fazer uma proeza tão espectacular quanto tragica. Como vivia com algum medinho de que aquilo um dia fosse tudo para o galheiro, comecei a guardar as receitas de cocktails e fiquei com todas num documentozinho word, muito satisfeito comigo próprio. Calhou que fui emprestando o único exemplar que imprimi a um amigo e depois a outro, e depois rodou-os todos e escuso de dizer que nunca mais apareceu. Quanto ao ficheiro, que estava ainda para aqui num CD de backup, foi para o lixo numa daquelas arrumações que se fazem quando acabamos uma relação longa e tomamos logo a decisão de mudar a disposição do sofá da sala, arrumar os livros outra vez e deitar fora coisas que já não fazem falta. Só reparei que o CD foi nessa leva um ano e meio depois.

Bom, isto para dizer que quem agradece sou eu. Pela receita do bloody mary que ainda uso tal e qual porque a sei de cór, por passar a saber que podia fazer o xarope de açúcar em casa, pela história da margarita em Palm Springs, e sobretudo por descobrir que um bar em casa é bom investimento e um investimento poupadinho, ao contrário do que possa parecer. Lamento não ter usado aquela receita do Old-fashioned (eu tinha 25 anos, achava que comprar Angostura estava fora de questão) ou do Pimms Cup e de mais uns quantos, mas a vida lá continuou.

Um abraço,
Sérgio

maradona, dispõe, estamos cá para isso.
De MEC a 9 de Julho de 2009 às 08:09
*baque*

We can't go on meeting like this.

Sérgio.

*tombo de cabeça*

Maradona

*tombo de cabeça*

Abraços amigos!

Miguel


De lcwlfitwvem a 8 de Maio de 2010 às 17:10
DSEk0y <a href=\"http://bulpbwreuitj.com/\">bulpbwreuitj</a>, [url=http://maxlueuoregr.com/]maxlueuoregr[/url], [link=http://dqaakbllueca.com/]dqaakbllueca[/link], http://xmqjbgfoaofd.com/

Comentar post

Pesquisar

coisos

Arquivos

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

blogs SAPO