Sábado, 13 de Junho de 2009

E tinha muito mais a dizer sobre o assunto

Depois de ler tudo o que escreveu sobre ressacas, como o bocadinho do post abaixo, tirado de Lucky Jim - obra que me fez gritar num quiz que o autor de Lord Jim era o Kingsley Amis - não vale a pena escrever muito, mas podemos actualizar um ou dois dos postulados.

Nem é que eu tenha ressacas muito incapacitantes, pelo menos a julgar por descrições de uma ou outra pessoa, mas é uma situação que incomoda e limita o dia. Aceitando também que eu não faço ideia do que se passa cientificamente para provocar esta dor de cabeça, volta ao estômago, cansaço geral, concentrei-me na única cura de ressaca que realmente funciona. Saber que passa. Uma ressaca passa sempre e se esta vos parece uma verdade sem importancia por tão óbvia, então é porque nunca acordaram com uma na vida. Ter isto presente é uma ajuda inestimável. Claro que importa muito a situação em que uma pessoa acorda. Pode-se ter que ir trabalhar e este é um dos raros casos da vida de um cidadão em que pode ter pena de si próprio, porque ninguém mais vai ter. "Bem-feita" é a combinaçãozinha nojenta de palavras que mais irá ouvir, como se o facto de ter sido provocada torne a dor de cabeça menos legítima. Quase ninguém aponta um dedo a quem espirra e pinga do nariz por não ter levado um agasalho na noite anterior (quase; se for eu, é certinho que levo com um muito satisfeito 'toma, que é para não teres a mania que és estúpido'). Se for trabalhar e não puder tirar a manhã procure não fazer nada o mais que conseguir, reze (reze mesmo, a deus ou a quem puder) para não fazer asneira, ou para aquela asneira que fez ontem não vir à tona hoje e conte os minutos para a hora de saída e pelo momentinho em que cai no sofá e perde finalmente os sentidos.

Há outro tipo de dias, em que quando acordar sabe que nessa mesma noite vai voltar a beber. Isto pode ser um sábado ou uma semana de férias e esta ressaca é quase inofensiva, é um intervalo. Não vale a pena queixar-se muito desta. A do dia seguinte vai ser pior. A ressaca do domingo, esta sim, reúne todo a sabedoria de Amis.

Vamos aceitar já que se divide em duas, que é a base de todo o seu pensamento sobre ressacas: a física e a metafísica. Da física não há muito a dizer a não ser evitar tudo o que potencie o mal-estar que já cá está. Refeições com molho, música alta, pessoas. E lembrar-se que passa. A metafísica é tudo o resto e, não só mas quase toda, resumida aqui:

When that ineffable compound of depression, sadness (these two are not the same), anxiety, self-hatred, sense of failure and fear for the future begins to steal over you, start telling yourself that what you have is a hangover. You are not sickening for anything, you have not suffered a minor brain lesion, you are not all that bad at your job, your family and friends are not leagued in a conspiracy of barely maintained silence about what a shit you are, you have not come at last to see life as it really is, and there is no use crying over spilt milk.

Não há cura para a ressaca, sobretudo não há como vencer a parte física da ressaca, mas há formas de diminuir esta sensação de ser um merdas que emparelha tão bem ressacas e domingos. É verdade que são tudo coisas inúteis e que no final do dia se podem virar contra si. Ninguém vai começar a escrever o Guerra e Paz num dia de ressaca, nem assentar o primeiro tijolo da casa de praia, portanto convém começar por tirar de cabeça que os dias devem ser ocupados de forma proveitosa, como se não fazer nada fosse algum crime. Comer, assim que conseguir, é essencial. Se puder ser um bife grelhado, melhor; uma pizza e coca-cola (a coca-cola é a poção mágica que se conhece, mas não convém exagerar - uma chega.) é uma receita famosa e eu também aprovo; salada russa, se houver cuidado com a maionese; gelado, fruta; enfim, tudo o que toda a gente sabe.

O Kingsley Amis lê ressacado. A mim isto parece-me um disparate, mas eram outros anos, talvez se possa aplicar aqui alguma correcção temporal. Para mim só existe a televisão. Filmes inócuos e séries espirituosas. O importante que sejam absolutamente inconsequentes. Uma vez experimentei ver uns quatro ou cinco episódios de West Wing e quase foi demais para a minha pobre alma ver tanta produtividade, vontade de fazer o Bem, e essas coisas que apareciam muito no West Wing. Twilight Zone, Scrubs, 30 Rock, uma telenovela, Flight of the Conchordes. Tudo ligeirinho, e com episódios de 20 minutos. Descobi que um bocadinho de Playstation não faz mal nenhum e pode compensar ligeiramente o ego se ganhar o campeonato do mundo com uma pequena equipa.

 

Se puder não ouço música, mas se tiver que ser atiro-me a tudo o que seja parecido com o Sunny Afternoon dos Kinks, que - experimentem - sabe a canja de galinha se for ouvida num dia de ressaca. Fugir do jazz, como o Amis não se cansa de repetir, é essencial , sob pena de acordar com a mesma dor de cabeça no dia seguinte. Rock também não é melhor, depende muito do baterista, mas ainda assim é certo que uma banda tem sempre um guitarrista e não se põe uma guitarra nos ouvidos de ninguém numa situação destas.

Muito rapidamente será de noite, a ressaca física já quase não existe e a metafísica pode estar no seu pico, mas aqui já não há nada a fazer, a não ser saber que está quase.

 

 

 

* Não referi propositadamente aquela ideia comum de que beber novamente faz passar a ressaca só por dois motivos. Primeiro porque realmente funciona e toda a gente conhece o truque. Segundo porque no mínimo qualquer pessoa com um cartão de crédito entende o problema gravíssimo que está associado a esta solução.

publicado por Sérgio às 17:52
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