Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Teoria da Segurança da Estética da Carris (TSEC)

Decidi finalmente aderir ao passe da Carris, Lisboa Viva. Aconselhei-me com os melhores ministros dos transportes públicos, deixei passar 15 dias do início do mês e lá fui eu à única estação onde entregam os cartões na hora a troco de uma taxa de 10€.

Acredito que estão todos à espera que depois deste parágrafo desate a falar mal da Carris, mas não as linhas que se seguem são todas elas elogios e admiração.

Passo ao relato do processo. Quando se pede o cartão Lisboa Viva com urgência (ou é urgente e a recepção é imediata ou sendo o pedido normal demora 10 dias úteis), exclusivo da Estação de Santo Amaro em Alcântara, os requisitos são um documento de identificação (BI, Carta de Condução, etc.), uma fotografia tipo passe e 10€ (1€ por cada dia de pressa). Até agora nada de estrianhio. Depois recolhem os dados do cartão de identificação, pedem a morada actual e um contacto telefónico. Após este procedimento, pegam então na fotografia de passe e colocam-na à frente de uma mini câmera digital, enquadram e fotografam a mesma fotografia, devolvendo-a depois ao futuro utente. Recebem os 10€ e entregam o cartão pronto para ser carregado no guiché (gosto da palavra guiché, soa a uma expressão composta de geek e cliché) na porta ao lado.

Devido a uma curiosidade visceral vi-me obrigado a perguntar porque convertiam a fotografia de passe numa fotografia digital. Disseram-me que eram as ordens que tinham. Perguntei também se no caso da pessoa não ter uma fotografia de passe consigo  eles fotografavam a fotografia do documento de identificação. Respondeu-me que a fotografia de passe é obrigatória.

Devo admitir que fiquei confuso por momentos mas depressa encontrei a luz e descobri a Teoria da Segurança Estética da Carris (TSEC).

Se uma pessoa falsificar um documento de identificação e tentar tirar o passe na Carris com o mesmo, surge-lhe logo o problema da fotografia de passe que tem de apresentar. É que um BI ou Carta de Condução vende-se em qualquer esquina, agora uma fotografia de passe é cada vez mais rara e muito mais bonita. As máquinas automáticas tornadas famosas no filme da Amélie Poulain estão pela hora da morte, as lojas de fotografia estão na falência e todos  sabem que só quem anda com fotografias de passe na carteira é que é gente séria. É preciso também reconhecer que quando se tira o passe na Carris não se está propriamente preparado para ver o seu rosto perpetuado, após horas de espera e empurrões. Já no tempo em que se ia ao fotógrafo, era diferente. Mesmo nas máquinas automáticas havia um espelho onde se estudava a pose e se afinava o sorriso formal da identificação. Aliás essas fotografias são tão raras que a Carris as até devolve aos seus clientes.

Importante também reconhecer o valor da Carris pela coerência. Se por um lado foi obrigada pelos tecnocratas da modernização do país em actualizar os formatos de identificação pessoal, por outro defendeu-se mantendo a versão antiga do processo que inclui a fotografia de passe. Temos de dar valor a uma instituição cujas preocupações ultrapassam em segurança e em estética o registo civil ou os passaportes, progressistas que tiram ali a fotografia no momento, sem respeito pelo penteado, nem consideração pelas olheiras.

Obrigado Carris, tu és o melhor exemplo do nosso Plano Tecnológico.

sinto-me: coiso
música: Bom era conseguir meter fotos sem ter de ter uma conta!
publicado por Manuel Padilha às 12:07
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