Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

eMule

Não estou a ver maior saco de gatos para um gajo se meter do que questões da propriedade intelectual. E dado que sou uma pessoa de extraordinário bom-senso, evitei sempre escrever fosse o que fosse sobre isto. Até agora.

Primeiro, nada me move contra as grandes companhias discográficas ou contra as distribuidoras ou os grandes estúdios. A música para começar, tal como a conhecemos, deve tudo às companhias discográficas (um dia haverá também de dever tudo à internet, mas já lá vamos). Antes de se gravar fosse o que fosse, já havia música não escrita, a passar de geração para geração, mestre para pupilo e essas coisas todas. E já havia isso tudo antes das histriónicas "recolhas" do David Byrne ou do Paul Simon e mesmo, por muito que me custe, do Damon Albarn. Mas foi só a partir da gravação do primeiro disco que a música não escrita se tornou verdadeiramente popular. O jazz, que teve a sorte de nascer quase ao mesmo tempo que o disco, seria só mais um fenómeno regional pitoresco se não fosse gravado. E sem jazz, etc, etc, etc.

A indústria, essa mal dita, é a grande responsável por ouvirmos jazz, e depois Sinatra, e depois rock, e soul, funk, hip-hop, indie e tudo o que está ali no meio. É excitante ver o que os Radiohead estão agora a fazer, a atalhar caminho e criar uma pequena revolução no meio (na verdade não faço ideia se é pequena ou grande, ou sequer se é revolução). E no processo, a ganhar dinheiro com isso. Mas o som dos Radiohead que é tão claro e objectivo é um produto evidente da indústria. Dos estúdios, da invenção da figura do produtor, de investimento. Retiremos o enorme génio daquelas pessoas da equação e o que sobra - e não é pouco - é trabalho de carpintaria, caro em equipamento e caro em técnicos muito qualificados. Simplesmente os Radiohead deixaram de precisar de investidores e resolveram largar lastro. No que acho muitíssimo bem, que a gratidão não é para aqui chamada, como as editoras passaram décadas a provar.

Passaram tantas décadas nisso que abusaram de uma posição que provavelmente acharam eterna. Desde que eu me lembro de comprar CD que o preço é um absurdo. Vinte euros é desnecessário e mesmo com todas as promoções que a FNAC e essas lojas muito nossas amigas têm, um gajo não é obrigado a gostar de jazz e poder assim comprar uma edição especial a sete euros de uma raridade que não é raridade nenhuma excepto o facto de ter sido gravado em 1957. Se eu gosto só de música nova não há nada a fazer, excepto os vinte euros.

Nada até aparecer a internet (e também os computadores offline, mas já lá vamos). De repente toda a gente resolve trocar discos online, milhões de discos. E não basta o absurdo de concorrência desleal (ou não se chamasse pirataria) que é o preço quase zero, mas é possível ainda ter edições que não existem em catálogo há anos, ou álbuns que só sairão dois meses depois. Durante alguns anos a indústria andou a anhar à grande, e evidentemente a posição de poder que ganharam fez tratar tão mal os artistas (e não estou a falar de miúdos que fariam tudo por um contrato, mas de máquinas de dinheiro como Prince, Madonna ou U2), que eles adoraram ser roubados.

Agora nem só há álbuns a ser oferecidos, como são produzidos pelos próprios e colocados à venda directamente pelas grandes bandas, ou então são artesanalmente gravados (e quanto o processo ficou fácil com um computador em casa) e apresentados via myspace, no caso de micro-bandas. Nem é preciso ir buscar as emblemáticas Lilly Allens deste mundo; a Flor Caveira é exemplar neste aproveitamento e não vejo outro modo de promover eficazmente bandas com potencial evidente como os Pontos Negros. Lembro-me bem, quando tinha um enorme deslumbramento juvenil com Nirvana, de ouvir amigos chatos e gente muito esclarecida dizer que bandas como aquela já eles conheciam aos milhares. Deviam pensar que viviam em Nova Iorque, ou o camandro. Eu nunca vi esses milhares, e agora vejo.

Agora é tudo mais fácil, grava-se um disco em casa e divulga-se online num fim-de-semana. Só que agora são milhões de grupos. Agora os miúdos imitam os Joy Division, os Kinks ou os Clash, é certo. Mas agora também são melhores músicos, ouviram mais música e, em muitos casos, até são melhores bandas.

Não faço ideia no que dá isto tudo, e até vejo o preço da música a baixar um pouco e sente-se aqui e ali alguma proactividade das editoras. Mas por outro lado a Universal anuncia descaradamente (e acho que desastrosamente para eles próprios), que os seus contratados não poderão ter mais do que 90 segundos de cada música no myspace. Devem estar loucos, que andar para trás nesta altura só pode dar asneira. Por mim prefiro viver neste tempo com demasiada informação musical a vir de todos os lados, mesmo que entenda que a maior parte está a passar-me ao lado. Já estava antes, só que agora temos consciência disso.

Tinha um plano de juntar esta conversa à da outra indústria, do cinema e da tv, e da greve dos argumentistas, e até era capaz de meter a ASAE ao barulho, mas o tamanho deste post já é coisa que não se usa em lado nenhum.
publicado por Sérgio às 00:18
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1 comentário:
De Caixedré das Flores a 5 de Dezembro de 2007 às 19:23
Clap! CLap! Clap! (mas com uma única dúvida: Pontos Negros??!)

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