Terça-feira, 26 de Julho de 2005

As coisas que se ouvem - parte 1

O vento dá guito.


O sintetizador Roland não desafinava uma nota em nenhum dos instrumentos reproduzidos, por cima dele o microfone de voz captava as lamúrias de cantor. Os três estavam sozinhos no palco e enfrentavam um público que se dividia entre casais rodopiantes e solitários com jeitos de dançarinos contemporâneos. Do lado esquerdo estendiam-se os bares cheios de gente sedenta e à sua frente uma série de mesas ao comprido acompanhadas por bancos similares com gente que comia e bebia a ceia da meia noite. Mais atrás algumas famílias reuniam-se para por a conversa em dia ou observar as crianças que corriam frenéticas ao som do artista local. Tanto este artista como 90% do público que assistia pertencem à etnia cigana. A acompanhar o cenário descrito temos as muralhas do castelo de Estremoz e algumas ruínas históricas não classificadas em decreto-lei.
O cantor repetia vezes sem conta "Somos filhos do vento, criados no campo, quando não tenho dinheiro, peço ao meu pai,..." e o povo bailaricava feliz. O já referido sintetizador dava um ar "moderno" às melodias ciganas e a percussão electrónica mantinha toda a gente em alvoroço.
O tempo passava e o vento-pai soprava cada vez mais. Quase à uma da manhã um indivíduo baixinho com cara de presidente da junta dirige-se à mesa de som e manda desligar o sistema. O cantor despede-se e os dançarinos dirigem-se ao bar para matar a sede. As famílias começam a chamar as crianças, a despedirem-se uns dos outros e a dirigirem-se ordeiramente para os carros e casas. De repente ouve-se uma guitarra amplificada que vem do palco. O artista agradece ao presidente da junta por lhe ser concedida mais uma música e desata a cantar que é "filho do vento, criado no campo" e quando não tem dinheiro pede ao pai. Metade dos que abandonava o recinto voltam para trás, os dançarinos deixam as bebidas a meio e correm para a frente do palco, as rumbas e a dança contemporânea regressa à festa. A música não tinha fim, com base no facto de "ser filho do vento e criado no campo" a voz canora improvisava mais e mais, ora em português ora em espanhol, a maior parte das vezes misturando as duas línguas numa terceira conhecida como portunhol. O técnico de som teve de fazer um fade-out quinze minutos depois para que o som das colunas se perdesse no burburinho das pessoas. O músico despede-se em silêncio e em pouco tempo uma caravana de carrinhas de carga com famílias dentro abandonam o local dando um ar de fim de feira rural ao evento.
O pai vento soprava mais e mais, levantava a terra mais superficial e sacudia a gente dali. Mesmo quem não tinha casa ou sítio para onde ir seguiu caminho para parte incerta, talvez conduzidos pelo vento e chamados pelo campo que os criou.
publicado por Manuel Padilha às 00:25
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