Domingo, 5 de Fevereiro de 2006

Rock Persistente #4 - Os DRR

Não se pode dizer que quisesse tocar baixo desde pequenino. Na verdade o instrumento apareceu-me nas mãos como única oportunidade de tocar nos DRR, dado por um lado o excesso de guitarristas (de lembrar que esta banda tinha na altura vagas ilimitadas) e por outro pela minha completa inaptidão musical. Por aqui se pode aferir logo que esta banda tinha tanto de sincera amizade entre os fundadores como de profundo desrespeito pela Música. De outro modo eu não estaria ali.

Não posso dizer que tenha sido cedo que me apercebi que há dois modos de aprender a tocar baixo de forma interessante. Um deles, eventualmente o mais importante é ouvir muito e dispôr de bom ouvido, mas lamentavelmente o único destes dois factores que não dependia de mim é o que eu não tenho. O outro método é o do trabalho, chato, diário, repetitivo, desmotivante, técnico, teórico, inicialmente inútil (dizem que os primeiros vinte anos são os mais dificeis, depois parece que é fácil). Nestes últimos tempos tenho seguido este último, treinando o ouvido à força, praticando exercícios chatos, tentando perceber porque raio existem tantas escalas, decorá-las à força, e fazendo muitas outras coisas cuja própria descrição é aborrecida. Não é uma visão muito romântica da música, mas é a única que trouxe ligeiros resultados.

Mas entre um e outro momento entendi que podia ir tocando baixo, que no entretanto algo surgiria, nem que fosse um qualquer tipo de talento. Não é difícil imaginar os estragos que uma linha de ideias deste tipo pode causar ao ego e a outros órgãos vitais da psique do indivíduo.

Algures em 1997 conseguimos mais uma importante conquista com a banda. Um primo do então vocalista estudava na Escola Secundária Artística António Arroio, sendo que para o trabalho final de uma, chamemos-lhe, disciplina precisava de uma banda, a fim de executar um processo de gravação em estúdio. Por troca deste transtorno na nossa agenda, poderíamos ter uma maqueta de quatro músicas. Fizémos então o jeito ao rapaz, pegámos nas tralhas e seguimos viagem da Rua da Junqueira às Olaias, de transportes públicos. Quem utiliza a Carris com regularidade deve estar já de dedo no ar com a sugestão da carreira 56 que faz precisamente este percurso. Pois que descanse que foi o que fizémos. Desta viagem lembro-me de a ter feito com o violinista e com uma sua colega de turma , e de ter sido passada praticamente toda numa interessante discussão sobre se podíamos ou não classificar de jazz o nosso som. Ninguém me levará a mal se guardar as conclusões para mim.

Terei ficado um pouco impressionado com o ambiente da escola, frescas que eram ainda as memórias do meu próprio liceu, mas em boa verdade pouco mais disso me ficou que um wc grafitado. A sala de gravação era tal qual eu imaginava. Sofás, muita aparelhagem a toda a volta, janelas grandes para uma rotunda e a cabine de gravação. Sempre foi muito habitual tratarmos da conversa com os técnicos como verdadeiros artistas de rumo bem definido e dos que não fazem cedências. Frases sobre os médios altos ou a captação da percursão das cordas ocuparam uma boa hora da impaciência justificada de professores e alunos. À margem de tudo isto, crescia em silêncio dentro de mim o medo de ser finalmente desmascarado como fraude musical, à frente de pessoas que estavam a trabalhar, à frente de amigos, convidados, e de todos quanto nos lembrámos de levar, como bom apanágio dos DRR. Por simpatia, uma das guitarras foi gravada primeiro, de modo a servir-me de orientação para a gravação do baixo. A música chamava-se 42 (o autocarro), e era inacreditavelmente simples de tocar. A juntar ao silêncio da cabine, tinha agora as mãos a suar e a boca a secar. Um clássico. As caras confiantes dos amigos, a cara expectante dos aspirantes a técnicos, o gesto para começar.

Houve de tudo, desde guitarristas a fazer de metrómonos visuais do outro lado do vidro a pequenos workshops de dez minutos sobre o 42 e os seus arranjos para baixo. Cada take de gravação acabava ao fim de dez a quinze segundos, ora porque eu parava, ora porque me adiantava, ora porque nem toda a boa vontade do mundo podem passar por cima de certos pregos. Depois de uns prováveis 40 minutos optámos por um intervalo, ao fim do qual optámos por interromper a sessão de gravação por esse dia, ao fim do qual nunca mais voltámos àquele estúdio por razões que desconheço.

Como de costume, no entanto, o entusiasmo à saída da escola era grande por mais um grande passo na história da banda. Apressámo-nos a atravessar as Galinheiras de instrumentos ao ombro e chegámos bem a tempo de jantar e explicar às pessoas que muito em breve estaria cá fora uma revelação em maqueta.
publicado por Sérgio às 20:34
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4 comentários:
De ॐJohn a 7 de Fevereiro de 2006 às 15:55
é, não é?
De batukada a 7 de Fevereiro de 2006 às 15:04
...
De batukada a 7 de Fevereiro de 2006 às 15:04
comentários no pitau...
De A Esposa a 6 de Fevereiro de 2006 às 11:07
Dito e feito! O Fante diz verdade e cumpre o que promete.É verdade que os métodos de educação musical que utilizas actualmente têm produzido óptimos resultados, incontestavelmente.Também dizias a verdade no sábado quando perante um coro de "ávidas" escritores de comments te resignaste a dizer: "sim, está bem, vai haver comments no Pitau. Fico muito feliz, tenho assim possibilidade de repôr a verdade histórica dos factos e como sempre fazer a minha criticazinha musical, critica mas amiga.

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