Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2006

No outro dia quase chorei...

... ao ver um brasileiro, preto, Ministro da Cultura do seu país, afirmando que existem certas coisas, poucas, em que uma pessoa decide acreditar. Mesmo e até ao fim. No caso dele, uma dessas coisas era o pensamento do Prof. Agostinho da Silva.
... ao ver outro brasileiro, preto, músico de rua da Paraíba, acompanhando-se de um único pandeiro e num baião alegre e bem rimado, a elogiar cantando o trabalho educacional do Prof. Agostinho da Silva que, 50 anos antes, aquando do seu exílio, fundara a Universidade Federal de João Pessoa. "A cultura com ele desceu à rua", dizia um dos versos.
... ao ver um português, branco, puto estúpido de serviço (orelhas e tudo), a responder assim à seguinte afirmação do professor num "Conversas Vadias de 1988":
Agostinho da Silva- O problema dos intelectuais portugueses é darem-se só e em demasia uns com os outros. Deviam ir ter com a gente do campo. Ver como vivem. Aprender com o povo.
Miguel Esteves Cardoso - Bem me parecia: você é maoista!...
Depois deste e doutros absurdos em directo, o Prof. Agostinho da Silva nunca mais voltou à televisão em Portugal. Até morrer. Prosseguia a secular novela de um país que gosta de tratar mal quem franca e desinteressadamente lhe quer bem. Próximos capítulos virão.
publicado por O Escravisauro às 14:00
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4 comentários:
De 4800GMR a 20 de Maio de 2006 às 15:45
Vi, recentemente, a entrevista de Miguel Esteves Cardoso ao Prof. Agostinho da Silva. Ainda que concorde com muitas das críticas feitas por MEC ao AS não pude deixar de notar que o espírito científico do professor é muito superior ao do MEC( isto porque é a dúvida constante que leva ao conhecimento).Por muito estranho que possa parecer eu concordo com as ideias do MEC mas identifico-me com a maneira de pensar do AS. Talvez o pensamento produza questões e não ideias.
Não pude deixar de me rir de um velho professor que acha que os portugueses são superiores a outros povos. Não pude, também, deixar de me rir de, um então jovem intelectual, que fica tão perturbado, por lhe dizerem que só convive com intelectuais e que não conhece o povo do seu país que é impelido a chamar "maoista" ao professor Agostinho da Silva...
Devo dizer que em vinte minutos consegui ficar desiludido com ambos..
De Victor de Souza Baptista a 23 de Fevereiro de 2006 às 11:37
O Prof. Agostinho da Silva não era Maomé
De O Escravisauro a 23 de Fevereiro de 2006 às 09:39
Bom, eu teria 13 anos e estava em Macau aquando dessa transmissão original do programa. Não o vi na altura (só foi transmitido na TDM 2 anos depois) nem teria sabido ajuizar seja o que fosse do que ali foi dito com propriedade. Desde já os meus elogios pela memória de elefante e pelo despertar precoce de uma conciência politico-filosófica que, aos 12 anos, lhe permite analizar as "piruetas verbais" de pensadores com 7 vezes a sua idade.
Em relação ao Agostinho da Silva estar na moda então, decerto não quererá fazer-nos crer que foi ele que planeou essa fama, fruto de um súbito desejo de estrelato aos 70 e tal anos... Foram os media que o haviam esquecido durante tanto tempo que de repente o descobriram e, como sempre fazem, o exploraram pelo lado mais popularucho e mais simplista da sua forma de ser e de estar na vida.
Quanto ao MEC, nada tenho contra ele. Apenas acho que aquele foi um momento triste da sua vida profissional, do qual, arrisco, o próprio, olhando para trás, se arrendenderá.
Enfim, os homens medem-se pelas suas obras. As do Prof. Agostinho da Silva estão bem patentes. Perduram e perdurarão no tempo. Ao contrário das do MEC. Isso ficou bem demonstrado no documentário que vi no outro dia RTP2, realizado pelo neto do Agostinho da Silva, e que motivou o meu juizo de valor "passados todos estes anos". Lamento que lhe tenha parecido deslocado. Aplique esse "seu" juizo de valor ao "seu" comentário e reflicta. Com bom senso.
De proletario a 22 de Fevereiro de 2006 às 17:02
Bem sei que este é um blogue de paz, mas não posso deixar de lhe responder. Eu lembro-me da entrevista que MEC fez a Agostinho da Silva. Na altura, o filósofo estava na moda e destacava-se pelas frases redondas que, bem espremidas, não queriam dizer nada. Bem ao jeito do tal ministro que você elogia, um homem cujo discurso público está a milhas do cantar público. MEC foi implacável, brutal, se calhar até mal educado. Mas o professor Agostinho insistia nas piruetas verbais e confesso que nunca percebi onde é que acabava o senso comum e começava a originalidade do pensamento do pensador. Provavelmente, o erro é meu, porque não lhe conheço a obra. Mas, na altura, achei as invectivas do MEC mais que justificadas. Fazer juízos de valor passados todos estes anos é que me parece deslocado.

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