Terça-feira, 1 de Novembro de 2005

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Camaradas, tendo em conta a recente elevação do discurso nesta chafarica, com grandes dissertações sobre as origens do jazz, o swing de Mozart, a falta de classe da mesma política ou a toponímia olissiponense, venho baixar um pouco a fasquia e falar-vos de cinema. Aliás, de um filme (que aquilo não é cinema, mas lá chegaremos) francamente mau.

O Crime do Padre Amaro é o nome da coisa. Estava para nem falar deste telefilme que, erradamente, anda a passar nas nossas salas de cinema, mas hoje, ao frequentar o CineCartaz para decidir o filme que irei ver a seguir, motivado provavelmente por uma espécie de curiosidade mórbida, decidi ver o que os críticos profissionais acharam da última tentativa de fazer cinema dito comercial em Portugal. O sr. Jorge Mourinha aparentemente gostou tão pouco como eu.

Deparei-me então com o espaço “o voto do público” que lhe dá 4.1 num máximo de 5 estrelas num universo de 406 votantes. Meus amigos, o que é isto? O que é feito do tradicional divórcio entre o cinema e o público português? Será realmente possível que tanta gente tenha uma opinião tão inequivocamente positiva acerca da coisa? Decerto que não poderão ter sido apenas as pessoas que, de uma maneira ou de outra, estiveram ligadas à produção a dar-lhe nota máxima.

Tudo isto se torna ainda mais bizarro quando se começam a ler as críticas do tal público. Quase todas muito positivas, realçando a grande competência dos intérpretes, o arrojo do argumento, o ritmo, a acção, as escaldantes cenas de sexo.

Ora bem, e para que não vão ao engano deitar dinheiro à rua, deixem-me que desmistifique um pouco esse mito: o filme é uma merda. Não chega a ser um filme, é antes uma re-montagem de uma série televisiva feita apenas com o intuito de sacar uns cobres a todos os papalvos que for possível (antes que digam que isto não passa de azia provocada pelo facto de eu ter sido um desses papalvos, digo desde já que, felizmente, não paguei. King Kard rula!). E é uma merda pura e simples, nem sequer uma bela merda é, que para fazer belas merdas também é necessária alguma perícia que, notoriamente, falta ao sr. Carlos Coelho da Silva.

Vamos então por partes: Os intérpretes – realmente, verdade seja dita, acho que nunca tinha visto um filme português com tamanho elenco, quase todo constituído por caras bem conhecidas do público, muitos deles em aparições fugazes que fazem os espectadores pensar “olha, lá está aquele gajo também!”. O problema é que dos que têm papéis relevantes, Nicolau Breyner e Nuno Melo fazem basicamente de eles próprios. Não quero com isto afirmar que o Nico é um filho da puta pedófilo e o Melo um traficante, mas apenas que se limitam a debitar o texto que lhes meteram à frente com a mesma expressão a que nos habituaram (apesar de Melo pronunciar talvez o “Foda-se” mais bonito da História do Cinema Português). Como diria o camarada Científico, se aqui escrevesse, são actores que desempenham sempre o mesmo papel da mesma forma. Já os desconhecidos, e precisamente os intérpretes principais, Jorge Corrula faz lembrar um Paulo Pires em mais novo (e não escrevo isto em forma de elogio) mas mais inexpressivo e Soraia Chaves, apesar de dona de um belíssimo cu e de um magnífico par de mamas (mas já voltaremos a este tema) é igualmente desprovida de talento dramático. Mas se isto não impediu pessoas como Rogério Samora e Alexandra Lencastre de alcançarem um patamar de grande prestígio no meio da representação, podem aspirar a seguir uma carreira na televisão ou no cinema.

O argumento – Costuma dizer-se nestas ocasiões “ainda bem que o Eça não viveu para ver isto, senão teria morrido de desgosto”. Se a ideia de adaptar uma obra marcante do escritor oitocentista não é descabida (veja-se o que aconteceu com a produção mexicana de 2002 a partir do mesmo livro e tirem-se as devidas ilações), aparentemente ninguém se lembrou de que não bastava essa ideia genérica para fazer um filme. Convém ter uma estrutura narrativa e personagens, ao invés de uma sucessão de ideias filmadas (e posteriormente montadas à pressa numa busca frenética de um vago fio condutor) e estereótipos bastante óbvios mas vazios de conteúdo (o clero pecador, o lumpen-proletariado delinquente, os cabeleireiros demasiado gays). Vá lá que nos pouparam ao sotaque beirão que os padres costumam apresentar no cinema e na televisão. As situações inverosímeis, os erros de continuidade e as sequências mal filmadas sucedem-se e atrapalham a atenção: o traficante baleado que vai pedir auxílio ao padre (mas porquê?), as calças que subitamente desaparecem no início de um parto, um suicídio mais do que anunciado em que a actriz se limita a baixar-se enquanto um automóvel passa convenientemente à frente da câmara.

O ritmo – Tenho para mim que a maior parte das pessoas confunde ritmo com velocidade (como tão bem expôs o camarada Fante após o seu visionamento de Last Days). Lá porque aqui as sequências se sucedem a um ritmo alucinante (e vá lá que não chega a ter uma montagem de videoclip, apesar de em certos momentos se aproximar perigosamente), é preciso ver que cada uma possui o seu ritmo e que, no todo, este fica bastante sincopado. A montagem faz com que se assemelhe a um carro em que temos o pé direito colado ao fundo do acelerador, tentando reduzir a velocidade com o pé esquerdo no travão Já experimentaram? Pois é, as travagens ficam um bocado bruscas (admito que os canhotos consigam fazê-lo com mais perícia, mas mesmo assim ficam com a ideia). Note-se, por exemplo, a sequência em que surge uma música de Da Weasel que esteve bastante na berra no Verão passado, sequência essa que termina segundos depois do refrão começar. Não teria sido possível acrescentar ou retirar algumas cenas que permitissem à música acabar antes ou depois do refrão? Ou mesmo a meio, ao invés do sítio inenarrável onde sucede o corte?

A acção – Por “acção” leia-se meia dúzia de cenas de pancadaria mal encenadas em que se nota à légua que os protagonistas estão mais preocupados em não se magoarem do que em fazerem com que as mesmas tenham alguma credibilidade, sobretudo quando são os “consagrados” envolvidos em tais cenas, e numa perseguição automóvel confrangedora pelo Porto de Lisboa, em que um carro todo quitado é perseguido por um chaço quase tão velho como o meu, de matrícula com as letras à esquerda e tudo, o que me fez questionar sobre se os produtores achavam realmente que a Judiciária ainda tinha no activo carros com alguns quinze anos até que surgiu a explicação: o tal chaço embate numa empilhadora ou lá o que é, salta espectacularmente no ar e desfaz-se em merda. Aparentemente só havia dinheiro para um Fiat Uno ou semelhante (eu não percebo nada de carros).

Finalmente, as escaldantes cenas de sexo - É bom ver que, pelo menos nesta área, o casting foi acertado. A tal Soraia possui realmente atributos para representar a encarnação da sensualidade que desvia o padre do seu caminho (lembro-me de pensar um par de vezes que podia ter levado umas calças mais largas para a sala de cinema), sendo que este é-nos apresentado como um jovem bem-parecido que, ocasionalmente, não usa mais do que uns boxers. O problema é que as cenas aparecem mais como planos de corte, tal é a sua irrelevância para o desenrolar da trama. Quantas vezes é que é preciso ver o padre Amaro a comer a Amélia sentado, de pé e à canzana para nos apercebermos de que está a quebrar o voto de castidade? Porra, eu percebi logo à primeira! Quer-me parecer, aliás, que a tensão sexual estava a ser mostrada de forma bastante eficaz, tendo-se esvaziado (se assim o posso dizer) após as escaldantes cenas. O sexo é usado, portanto, apenas como chamariz aos potenciais espectadores e é absolutamente gratuito (no entanto, não irei discutir se isso é bom ou mau… ver nota acerca das calças mais para cima).

No final, o que sobra? Muito pouco. Uma ideia interessante mas muito mal executada, e nem sequer original, algumas interpretações, para quem gosta do género e, no meu caso, o atractivo de tentar descortinar os locais das filmagens que não distam muito da minha casa. Muito pouco, mesmo. Se este é o futuro do cinema português, agora que o César Monteiro faleceu e o Manoel de Oliveira tem quase cem anos, fico deveras preocupado. Tenho que ir ver o Alice para ver se isto passa.

publicado por Comboio Azul às 03:34
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