Terça-feira, 6 de Dezembro de 2005

Para morrer basta estar vivo

De visita à terra natal, telefono a um velho camarada para o copo da praxe. O tipo esquiva-se com uma desculpa parva: "Estou internado no hospital". E depois conta-me a história de como lá foi parar.
Tudo começou há quatro anos. O meu amigo começou a reparar que lhe inchava uma perna de vez em quando. Não ligou grande importância ao assunto, até porque os médicos a que foi entretanto (por outras mazelas diversas) nunca acharam que a coisa fosse mais do que "alguma lesão muscular". Pois, há três semanas, o Marco resolveu acrescentar um outro condimento à já costumeira perna inchada. Desta vez, lembrou-se de acompanhar a dilatação das carnes com umas cuspidelas de sangue. Assim ganhou uma boa desculpa para entrar pelas urgências a dentro, com ar de aflito.
Os médicos, como é seu costume, demoraram a fazer um diagnóstico. Infecção pulmonar era a causa mais provável. Pelo sim, pelo não, encomendaram-lhe uma bateria de testes. Nada de especial a declarar. Pediram-lhe então que fizesse um TAC de Contraste. Depois de uma noite passada no hospital (por precaução e facilidade na recolha de amostras para análise, disseram-lhe), o Marco fez o tal TAC e foi mostrá-lo aos médicos. Depois de olharem para o exame e para ele repetidamente perguntaram-lhe:
- O senhor sente-se bem?
- Sinto, porquê, não devia?
- Onde é que vai agora?
- Ia ali à casa de banho.
Ainda autorizaram essa última liberdade urinária. Depois deitaram-no numa cama com instruções para se mexer pouco e escassas explicações acerca da sua enfermidade. Como devem imaginar, o Marco, que é um rapaz sensível, passou a noite azucrinado com todo o tipo de doenças mortais que, calculava ele, o estariam a minar por dentro. A explicação chegou de manhã.
Parece que o Marco vive desde há quatro anos com as veias e artérias cheias de coágulos. Se alguma destas partículas de sangue solidificado lhe chega ao coração ou ao cérebro ele morre. Ao longo de todo este tempo, teve dentro do corpo várias bombas relógio que podiamn rebentar a qualquer momento. Após três semanas no hospital, o Marco está livre de perigo. A maioria dos coágulos já desapareceram. O que não passa tão cedo é o susto. E a indesculpável fífia de falhar um copo comigo num dos já raros dias em que apareço na terra.
Resumindo, e acrescentando a frase bacoca que dá o remate moral à prosa, esta coisa provisória a que chamamos vida é tão frágil como um fósforo ao vento.
publicado por Proletário às 12:12
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