Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Ensaio sobre a cegueira

Evitei o mais possível divulgar o blog que se segue, mas agora é impossível, e de qualquer modo, está quase terminado. Quando o Fernando Meirelles começou a produção de Blindness resolveu começar também um diário de filmagem. Há uma mente esquemática e visual por trás de cada post e cada um deles é um workshop sobre escrita de guiões, direcção de actores ou montagem e mais ainda. Não vale a pena ir lá para quem não estiver disposto a começar do post um.

Diário de Blindness

« O departamento de arte bem que preparou um verdadeiro catálogo de fezes feitas com chocolate e outras misturas, desenvolveram um know how incrível para recriar diarréia, cocô de pessoas que comem fibras, de quem só come proteína. Um primor. Apesar de impressionado com o resultado, decidi ser econômico no uso da tecnologia desenvolvida. Nêgo vai ter que olhar nos cantinhos do quadro para ver a sujeirada. Eu estava feliz com isso, até que naquela tarde me bateu a referida dúvida:

– Falta cocô? Será que me acovardei e estou fazendo um filme limpinho? Será que a situação que deveria ser insustentável vai perder o peso por causa da minha calhordice asséptica? »


«O Mark [Rufallo], como era de se esperar, elogiou o que viu, elogiou a Julianne [Moore], mas ficou arrasado com sua própria performance. Típico. “Eu disse que você deveria ter chamado o Sean Penn”, falou. De fato algumas vezes, depois de acabarmos uma cena ele dizia: “Acho que o Sean Penn ainda está disponível, não me ofendo se você quiser me substituir”.»


«Finalmente, há uma câmera 16mm que entregamos ao acaso, ou para Deus, como diz o César. Usamos basicamente para desperdiçar negativo. Ela em geral fica amarrada com fita crepe num canto e quase sempre roda sem operador, é acionada por quem estiver mais perto. O aproveitamento das imagens desta câmera-do-acaso é baixo. É como lançar uma rede sem grandes expectativas para eventualmente puxarmos imagens inesperadas. E acontece.»
publicado por Sérgio às 16:00
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Vinho em copo de plástico na esplanada? Quid Juris?

No Sábado passado, o Jornal Público publicou uma crónica de António Barreto que indicava a proibição do papel de jornal à volta da castanha assada, da bica em loiça numa esplanada.
O pânico anda aí, mas não encontro qualquer legislação que corrobore a crónica. Os restaurantes andam preocupados com a clientela fumadora, não há no site da Associação da Restauração e Similares de Portugal qualquer indicação de alterações aos hábitos lusos.

A crónica é portanto, ficcionada, leva a crer o que não vai ser, e a melhor prova que temos disso, é o fim da mesma:



TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.


Um dia nestes, mas não em 2008.

publicado por joaovelhote às 11:47
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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

Para a revelação do último quiz cascata

O senhor da pastoral  a quem devemos um terceiro lugar, deverá saber responder ao desafio do autor do Freakonomics:

Is there ever a situation in a parimutuel betting system in which you would want to bet on a horse to win, even though you knew for sure that the horse would lose the race?

publicado por joaovelhote às 17:45
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Jamanta Fox*

Ao contrário do que pensam as pessoas de bem eu só sou um admirador da raia por embirração e por um bocadinho de marketing. Claro que ganhei afeição ao animal desde que este blog existe, mas é um mundo muito complexo, que envolve cartilagens, dorsiventrais, animais pelágicos no geral, tudo situações fora do meu alcance, por onde até tentei ir mas estava condenado à partida. Por muito que reconheça uma certa elegância a uma raia como a que está no cabeçalho novo, é mesmo no prato que entendo o peixe como o cavalo de batalha que merece. Neste aspecto já posso ser mais catedrático, porque duvido que haja forma de raia que não tenha comido.

Convém começar por excluir a raia isolada da equação. Há na raia qualquer coisa que parece andar sempre a reboque de outros peixes, nomeadamente do bacalhau, no que me parece existir um erro grave.  A raia frita, por exemplo, devia valer por si, mas colou-se ao bacalhau homólogo de tal modo que nunca conseguiu afirmar-se. Já na caldeirada a raia emparelha com o safio no seu papel de orelha ou rabo de boi do Cozido à Portuguesa. Não sei se alguma vez serviram uma caldeirada a convidados, mas garanto que sem perguntarem às pessoas se desejam ou não raia e safio, é seguro como os impostos que as duas postas irão aparecer desfeitas nas bordas do prato com outras espinhas, com restos de pimentos (esta gente tende a não gostar de nada). Custa-me um pouco entender quem consegue recusar raia e safio em simultâneo. O que faz uma pessoa renegar o safio (a preguiça, imagino) devia fazê-las abraçar a raia e vice-versa, mas começo a acreditar que não há um fio condutor nestas cabeças quando toca a peixe. Apesar de divagar agora um bocado, sublinhava só que a raia, servindo magistralmente a caldeirada é por vezes um pouco injustiçada na mistura.

Procurou-se ainda criar na criatura um complexo maior e talvez acabar com o animal para sempre: houve quem salgasse a raia. Cheguei mesmo a comprar esta variante ali na Rua do Arsenal assim que cheguei a Lisboa (não foi logo logo, que precisei de ocupar dois anos a aprender a cozinhar) e grelhei-a. A subjugação humilhante ao bacalhau entristeceu-me definitivamente e deixei a raia de parte. Ao contar isto à minha mãe, vim a descobrir, anos depois de lá ter vivido, o carácter subversivo e hospitaleiro da Figueira da Foz enquanto mãe e pai adoptivos da raia. Depois de se rir com vontade da minha patética tentativa, serviu-me em poucos minutos uma raia grelhada fresca. É dificil explicar o que acontece a uma raia fresca em cima das barras de uma grelha com carvão por baixo, mas acreditem quando vos digo que é impossível manter a posta inteira. Impossível! Quase impossível. É quase impossível, excepto se alguém se dispuser a permanecer constantemente de volta do peixe, virá-lo com os próprios dedos vezes sem conta, enfim, perder a vontade de comer no fim daquela batalha. É um trabalho de abnegação que dignifica a raia e veio tirar de vez dos meus horizontes a raia salgada.

Penso que nada move os figueirenses contra povos nórdicos mas o trabalho de afastar a raia progressivamente do bacalhau levou-nos à pièce de resistance de elevar a raia a um estatuto único. Isolá-la, no fundo. A Raia de Pitau foi a tentativa - talvez demasiado arrojada - de tomar em mãos a tarefa. Tentar encontrar um lugar entre uma cabidela, iscas à portuguesa e uma caldeirada de raia lavada em vinagre, tinha que dar num híbrido pouco convidativo e sobretudo pouco consensual, mas foi aqui que a raia atingiu a sua vitória plena. Contra a unanimidade fácil do bacalhau, a raia assume-se como peixe maior da cena indie gastronómica e a Figueira como a sua fiel editora independente. Não é nenhum acaso que a banda que canta my manta ray is alright seja a banda que é.



* É impossível, ou pelo menos nunca foi tentado, cozinhar uma raia com molho de pitau a partir de uma jamanta, que é aquele animal que está no cabeçalho do blog (e sim, é uma raia). Se fossemos nós a tratar do layout disto nunca chegaríamos aqui, ou tentávamos alguma coisa idiota como uma caçarola a borbulhar do molho negro do pitau, mas felizmente a pachorra de gente como a Jonas e o Pedro ofereceu-nos um blog assim, chave na mão. Eu sei que parece impossível, mas apesar de estarem a soldo de perigosos grupos de comunicação foram disponíveis e competentes e essas coisas.
publicado por Sérgio às 16:24
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E era bom.

Nem só de discos é possível gostar só pela capa.

publicado por Sérgio às 13:12
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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Meus caros, eu vi a "Corrupção"

... e posso confirmar que é a coisa mais feia a 2 dimensões em que pus a vista em cima nos últimos tempos e isso inclui a colonoscopia do meu vizinho da cave esquerda. Não perguntem porque raio visionei tal exame médico pois não vim aqui falar de cinema documental mas sim do futuro do cinema comercial em Portugal segundo o senhor Alexandre Valente. E esse futuro, meus amigos, é negro… Mais negro que o ânus do Sr. Neves, um homem com graves problemas no terço inferior do intestino.

Antes de mais merdas, passo a explicar que decidi ir ver o filme (em tão infame quanto arrependido desrespeito pelas sensatas recomendações d’ A Esposa) pois mantenho uma pontinha de admiração pelo Sr. João Botelho desde que vi o “Aqui na Terra” há muito, muito tempo, apesar da basta porcaria que ele vem fazendo mais actualmente. Admito também que, num momento de fraqueza, a operação de marketing/polémica/publicidade montada pelo produtor tenha penetrado o meu cérebro através de um qualquer soft spot ainda não identificado mas que desconfio se chama “mamas”.

Enfim, lá fui e o que vi é francamente mau. E o Sr. Botelho não fica menos mal na fotografia por ter tirado o seu nome daquele monte de esterco à última hora, quando a coisa já fedia o suficiente para intoxicar um exército de terracota. Se a montagem é um nojo, a iluminação um nojo é, a direcção de actores uma fantochada, os enquadramentos uma piada, os cenários primários, os diálogos pouco mais que palavrões intercalados com proposições, o enredo é um ultraje à inteligência de uma criança de 10 anos, raccord não existe, talento nem se fala, a arte não mora aqui e mesmo o simples entretenimento não é visto nem achado.

Aqui ficam dois exemplos da mais pura e boçal imbecilidade, que são, penso eu, da inteira responsabilidade do realizador que não o é: (1) para simular os devaneios paranóicos e depressivos de Sofia (Margarida Villas-Boas/Carolina Salgado) a genial realização coloca umas mãos à frente de um holofote a fazer sombras chinesas (ou seriam efeitos especiais computorizados?) sobre a cara da actriz, que se contorce, geme, esbugalha os olhos, sem nunca descurar a boquinha de broche que marca as suas carreiras (a da Margarida e a da alternadeira; aliás, numa coisa seja feita justiça: elas estão bem uma para a outra); (2) para ilustrar um salto de cerca de 6 meses na narrativa, a realização opta pelo originalíssimo recurso de filmar em grande plano um calendário do qual se arrancam folhas e ao qual depois alguém atira um balde de água para simbolizar a chegada do Inverno. Brilhante!

Com Inverno ou sem Inverno, o descontentamento era patente na fronha de todos quantos levantavam os rabos dos confortáveis (valha-nos isso!) assentos do Londres. Pelo que me toca, rezo a todos os santinhos para que iluminem a inteligência dos portuguesas com uma lâmpada de mais watts do que aquela que me dispensaram ontem à noite, para que o fiasco financeiro seja grande e fundo, para que o Sr. Valente perca logo a casa no Alentejo que hipotecou para produzir aquele aborto. Merece isso, muito mais e pior.

Por último, uma razão para não chorar. Do mal o menos: não há dinheiros públicos investidos nesta coisa a que chamaram filme… Só o dinheiro particular de papalvos como eu.
publicado por O Escravisauro às 14:04
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